quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Receitas para enfrentar um ano difícil

Por Gladinston Silvestrini

Replanejar - essa é a palavra de ordem entre as pequenas e médias empresas. Uma sondagem exclusiva feita pela consultoria Deloitte e EXAME PME com as companhias que participaram do estudo As 100 Pequenas e Médias Empresas Que Mais Crescem no Brasil nos anos de 2006, 2007 e 2008 mostrou que a revisão dos projetos que estavam sendo traçados para 2009 está concentrando as preocupações na maioria delas. A partir de outubro - quando os reflexos da crise mundial se tornaram mais agudos no Brasil -, foi preciso alterar as expectativas de crescimento para o próximo ano em 72,5% dessas empresas. A regra geral é investir menos, cortar mais custos e reduzir as contratações em relação ao que estava previsto.
Não é que os donos desses negócios estejam dando por encerrado seu ciclo de expansão acelerada - 46,4% das empresas ouvidas vão terminar 2008 com acréscimo de mais de 20% no faturamento em relação a 2007. A maioria - 92,9% - afirma que as receitas continuarão aumentando em 2009. Mas, agora, apenas 30% das pequenas e médias que mais vinham crescendo no país acreditam que a expansão de 2009 terá alguma condição de ser maior do que a obtida em 2008.
A profundidade do replanejamento varia, dependendo do setor e da fase de crescimento de cada empresa. Na MZ Consult, de São Paulo, especializada em assessorar empresas no relacionamento com investidores. Das 103 companhias que, entre 2003 e 2007, abriram o capital, 93 se tornaram clientes da MZ. Agora, a fila parou de andar. Neste ano, a MZ deve faturar 33 milhões de reais, 24% mais que no ano passado - um crescimento alto, mas bem mais modesto que o registrado entre 2005 e 2007, quando a MZ dobrava de tamanho a cada ano.
"No começo deste ano, 40 dos nossos 300 clientes estavam se preparando para estrear na Bovespa", diz Rodolpho Zabisky, sócio da MZ. "Eles tiveram de suspender tudo, e fomos obrigados a rever nossa estratégia." Como ninguém tem idéia de quando a bolsa se tornará atraente de novo, nos últimos meses Zabisky tem trabalhado para reorganizar a estrutura da MZ. A área comercial recebeu reforço - dois executivos que atendiam somente contas de grandes clientes passaram a se dedicar também aos contatos comerciais. A orientação é desenvolver novos produtos, como um sistema que permite realizar assembléias online com acionistas e investidores.
O caso MZ mostra a necessidade de ter um plano B para momentos ruins. "Qualquer negócio precisa ter alternativas para enfrentar mudanças de cenário", diz André Gargaro, consultor da Deloitte. "A crise está mostrando que a falta de preparo para enfrentar mudanças bruscas pode custar muito caro." No caso das pequenas e médias em expansão, poucas questões para 2009 estão tão abertas à avaliação de alternativas quanto a seguinte: onde buscar recursos agora?
O dinheiro não sumiu, em novembro, o BNDES e o BB anunciaram a oferta de 15 bilhões de reais para capital de giro, empréstimos para exportações e empréstimos-ponte para pequenas e médias empresas. Mas os recursos existentes ficaram mais caros. Em outubro as linhas de capital de giro ficaram mais caras e os prazos de pagamento encurtaram. "Quem cobrava 1,5% ao mês passou a cobrar 2,5%", diz Marcio Iavelberg, da Blue Numbers. "Os prazos de pagamento, que variavam de 24 a 36 meses, hoje ficam entre 18 e 24 meses."
Crises são inevitáveis. Ninguém gosta, mas elas obrigam um empreendedor a enxergar o negócio com seus verdadeiros riscos - e isso é ótimo, ainda que não se aprecie nem um pouco o que se vê. Em boa parte dos casos, ver direito é o primeiro passo para melhorar aquilo que não está bom.

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