Uma abordagem crítica
Por: Alexandre Faria / Fernanda Filgueiras Sauerbronn
Após longo período de desinteresse por questões sociais ou políticas e devido aos recentes escândalos protagonizados por grandes corporações, observamos nos últimos 10 anos a aproximação da área de estratégia, em especial nos EUA, do tema responsabilidade social empresarial (RSE). Fenômeno similar começa a ser observado no Brasil. Este artigo argumenta que essa aproximação deve ser desafiada. Baseando-se na análise crítica da área de estratégia feita recentemente por pesquisadores europeus, os autores mostram que a não-neutralidade da área de estratégia, vista como um campo organizacional, ajuda a explicar o escândalo da Enron, por exemplo. Por meio de uma análise histórica interdisciplinar este artigo mostra que a abordagem contemporânea mais conhecida de RSE e a área de estratégia dividem uma mesma diretriz problemática: a legitimação das grandes empresas e o desprezo pela dimensão pública e pelo Estado. Ao final, os autores argumentam que a aproximação da área de estratégia do tema RSE deve contemplar a dimensão pública para que questões sociais não se transformem em meros recursos estratégicos e políticos de grandes corporações.
1. Introdução
É crescente o interesse das empresas e da academia de administração pelo tema responsabilidade social corporativa (RSC), ou responsabilidade social empresarial (RSE), ao longo dos últimos 10 anos. Trata-se de um quadro surpreendente visto que esse tema foi timidamente tratado até o final dos anos 1980. Esse quadro de timidez pode ser explicado pelo desinteresse da área de estratégia pelas obrigações sociais das grandes empresas e pelo âmbito das políticas públicas, pela predominância de bagagens advindas da economia neoclássica na área, e pelo subdesenvolvimento de pesquisa no âmbito da estratégia política corporativa.
Devido ao avanço acelerado da globalização, ao crescente poder político e econômico das grandes corporações, aos grandes escândalos corporativos, e às reações conduzidas por ativistas e outras organizações a esse poder, o tema ganhou importância na sociedade e na academia. A área de estratégia em particular vem se aproximando do tema, principalmente nos EUA.
No Brasil o cenário da RSE é muito promissor. Ao final de 2005, por exemplo, o número de empresas filiadas ao Instituto Ethos de Responsabilidade Social aproximava-se de mil. Ademais, cabe destacar que nos últimos 10 anos cresceu de forma exponencial o número de publicações, seminários e pesquisas acadêmicas sobre o tema.
Os autores deste artigo argumentam que pesquisadores no Brasil seguirão a abordagem mais veiculada atualmente nos EUA devido à influência da academia dos EUA sobre a local e à fragilidade da literatura focada no tema no Brasil: “os títulos disponíveis (...) caracterizam-se mais por serem manuais ou textos de difusão de novas práticas empresariais, do que reflexões analíticas e críticas” (Jaime, 2005:969).
Essa rota prevista deve ser questionada tendo em vista as críticas produzidas por pesquisadores europeus quanto à relevância do conhecimento produzido na área de estratégia (Whittington et al., 2003). Diferentes autores europeus vêm ressaltando que uma das principais características da área, a qual é dominada pelos EUA desde meados dos anos 1960, é a falta de reflexividade crítica (Whipp, 1996; Pettigrew, Thomas e Whittington, 2002). Entretanto, tais questionamentos não vêm sendo valorizados por pesquisadores no Brasil.
Neste artigo nos concentramos em três importantes questões para desenvolvimentos futuros na área de estratégia:
· a crescente importância social e política das grandes corporações na era da globalização, principalmente em países menos desenvolvidos;
· o crescimento do número de escândalos corporativos em paralelo à aproximação da área de estratégia do tema RSE;
· as crescentes críticas quanto à relevância do conhecimento na área de estratégia (Whittington, 2004) e à importação acrítica do conhecimento produzido nos EUA (Bertero, Vasconcelos e Binder, 2003).
Para dar conta dessa argumentação, este artigo está dividido em seis seções. Na segunda revisamos o trabalho de pesquisadores europeus que tratam a área de estratégia como um campo organizacional para demonstrar a participação da área em escândalos corporativos como, por exemplo, a Enron. Nas seções três e quatro tratamos da evolução do conceito da RSE e as principais abordagens teóricas, onde destacamos a aproximação desse tema da área de estratégia. Na quinta, desenvolvemos uma análise histórica da área de estratégia para mostrar que ela tem como principal diretriz a legitimação de grandes empresas. Na última seção, traçamos considerações sobre a aproximação da área de estratégia da temática da RSE e a necessidade desta ser acompanhada pelo reconhecimento da dimensão pública.Para ter acesso a todo esse artigo e a muitos outros visite: http://www.ebape.fgv.br/
Por: Alexandre Faria / Fernanda Filgueiras Sauerbronn
Após longo período de desinteresse por questões sociais ou políticas e devido aos recentes escândalos protagonizados por grandes corporações, observamos nos últimos 10 anos a aproximação da área de estratégia, em especial nos EUA, do tema responsabilidade social empresarial (RSE). Fenômeno similar começa a ser observado no Brasil. Este artigo argumenta que essa aproximação deve ser desafiada. Baseando-se na análise crítica da área de estratégia feita recentemente por pesquisadores europeus, os autores mostram que a não-neutralidade da área de estratégia, vista como um campo organizacional, ajuda a explicar o escândalo da Enron, por exemplo. Por meio de uma análise histórica interdisciplinar este artigo mostra que a abordagem contemporânea mais conhecida de RSE e a área de estratégia dividem uma mesma diretriz problemática: a legitimação das grandes empresas e o desprezo pela dimensão pública e pelo Estado. Ao final, os autores argumentam que a aproximação da área de estratégia do tema RSE deve contemplar a dimensão pública para que questões sociais não se transformem em meros recursos estratégicos e políticos de grandes corporações.
1. Introdução
É crescente o interesse das empresas e da academia de administração pelo tema responsabilidade social corporativa (RSC), ou responsabilidade social empresarial (RSE), ao longo dos últimos 10 anos. Trata-se de um quadro surpreendente visto que esse tema foi timidamente tratado até o final dos anos 1980. Esse quadro de timidez pode ser explicado pelo desinteresse da área de estratégia pelas obrigações sociais das grandes empresas e pelo âmbito das políticas públicas, pela predominância de bagagens advindas da economia neoclássica na área, e pelo subdesenvolvimento de pesquisa no âmbito da estratégia política corporativa.
Devido ao avanço acelerado da globalização, ao crescente poder político e econômico das grandes corporações, aos grandes escândalos corporativos, e às reações conduzidas por ativistas e outras organizações a esse poder, o tema ganhou importância na sociedade e na academia. A área de estratégia em particular vem se aproximando do tema, principalmente nos EUA.
No Brasil o cenário da RSE é muito promissor. Ao final de 2005, por exemplo, o número de empresas filiadas ao Instituto Ethos de Responsabilidade Social aproximava-se de mil. Ademais, cabe destacar que nos últimos 10 anos cresceu de forma exponencial o número de publicações, seminários e pesquisas acadêmicas sobre o tema.
Os autores deste artigo argumentam que pesquisadores no Brasil seguirão a abordagem mais veiculada atualmente nos EUA devido à influência da academia dos EUA sobre a local e à fragilidade da literatura focada no tema no Brasil: “os títulos disponíveis (...) caracterizam-se mais por serem manuais ou textos de difusão de novas práticas empresariais, do que reflexões analíticas e críticas” (Jaime, 2005:969).
Essa rota prevista deve ser questionada tendo em vista as críticas produzidas por pesquisadores europeus quanto à relevância do conhecimento produzido na área de estratégia (Whittington et al., 2003). Diferentes autores europeus vêm ressaltando que uma das principais características da área, a qual é dominada pelos EUA desde meados dos anos 1960, é a falta de reflexividade crítica (Whipp, 1996; Pettigrew, Thomas e Whittington, 2002). Entretanto, tais questionamentos não vêm sendo valorizados por pesquisadores no Brasil.
Neste artigo nos concentramos em três importantes questões para desenvolvimentos futuros na área de estratégia:
· a crescente importância social e política das grandes corporações na era da globalização, principalmente em países menos desenvolvidos;
· o crescimento do número de escândalos corporativos em paralelo à aproximação da área de estratégia do tema RSE;
· as crescentes críticas quanto à relevância do conhecimento na área de estratégia (Whittington, 2004) e à importação acrítica do conhecimento produzido nos EUA (Bertero, Vasconcelos e Binder, 2003).
Para dar conta dessa argumentação, este artigo está dividido em seis seções. Na segunda revisamos o trabalho de pesquisadores europeus que tratam a área de estratégia como um campo organizacional para demonstrar a participação da área em escândalos corporativos como, por exemplo, a Enron. Nas seções três e quatro tratamos da evolução do conceito da RSE e as principais abordagens teóricas, onde destacamos a aproximação desse tema da área de estratégia. Na quinta, desenvolvemos uma análise histórica da área de estratégia para mostrar que ela tem como principal diretriz a legitimação de grandes empresas. Na última seção, traçamos considerações sobre a aproximação da área de estratégia da temática da RSE e a necessidade desta ser acompanhada pelo reconhecimento da dimensão pública.Para ter acesso a todo esse artigo e a muitos outros visite: http://www.ebape.fgv.br/